quinta-feira, 29 de junho de 2017

Qual o propósito de fazer um mestrado ou doutorado no Brasil?

Richard vem de uma família de origem simples, sendo o primeiro de seus familiares a fazer um curso universitário em uma instituição pública. Ao concluir o curso de química, como muitos jovens, fica perdido sobre o rumo de sua carreira. Decide então se inscrever no mestrado como bolsista: neste período não precisa se preocupar pois recebe recursos do governo federal para estudar. Ao final do mestrado, também se encontra no mesmo dilema de quando concluiu a graduação. Decide então fazer o doutorado como bolsista, concluir o doutorado, e então se ver obrigado a trabalhar.
Infelizmente, mesmo com seu título, só consegue emprego nas instituições públicas através de concursos bastante seletivos. Tenta vaga na iniciativa privada, mas a linha de pesquisa com que Richard trabalhou é pouco explorada pelas empresas, além do fato dos salários serem baixos. O problema é que as instituições e centros de pesquisa públicos não estão abrindo concurso e Richard fica quase dois anos tentando passar em algum, mesmo fora de sua área de atuação. Para não ficar parado, ele faz um Pós Doutorado e, para complementar a renda, começa a dar aulas de química para adolescentes em uma escola pública, até surgir a oportunidade que espera em instituição pública (universidade ou centro de pesquisa).
Em uma outra história parecida com a de Richard, Jack, também de origem simples e primeiro da família a entrar na universidade (privada), concluiu o curso de química e seguiu o mesmo caminho de Richard: fez mestrado e doutorado, e aos 24 anos concluiu o PH.D. Em vez de tentar ser professor, tentou uma vaga em uma grande empresa. Na época, foi disputado por três companhias e, animado, tomou a decisão por uma grande organização que fabrica plásticos. Jack ajudou a empresa a desenvolver novos plásticos resistentes, eficazes na substituição da madeira e do aço em diversos objetos, o que representou uma revolução para época. Subiu de cargo várias vezes até chegar a CEO da organização. Como executivo, fez a empresa crescer 5 vezes em 20 anos, contribuindo para o desenvolvimento de seu país e para o de outros em que a empresa se instalou.
A primeira história é uma quase ficção, baseada em fatos reais que presenciei em meus 10 anos de magistério. Trata-se da narrativa de profissionais que possuem um grande potencial e que gastaram recursos e energia para pouco ou nenhum retorno, com consequente frustração e, muitas vezes, depressão. A segunda história é real e o protagonista é nada menos que Jack Welch [9], considerado por muitos o maior CEO de todos os tempos, tendo comandado e revolucionado a General Eletric por mais de 20 anos.
Por que as duas histórias tomaram rumos tão diferentes? A primeira ocorreu no Brasil, e a segunda nos EUA. Pesquisa recente apontou que [1] as empresas norte-americanas, apesar de terem faturamento 21 vezes superior ao das brasileiras, gastam 66 vezes mais em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e empregam 40,5 vezes mais doutores. As despesas em P&D [1] das companhias norte-americanas vinculadas ao IRI (Industrial Research Institute) atingem, em média, US$ 135,1 milhões anuais, o que corresponde a 3,5% da receita. Já os gastos das afiliadas à Anpei, associação que reúne as indústrias nacionais que mais investem em pesquisa tecnológica, chegam a pouco mais de US$ 2 milhões ao ano (cerca de 0,98% da receita). A cada ano, as empresas norte-americanas geram em média 120 patentes, contra apenas 0,8 das nacionais.
A maior parte dos pesquisadores brasileiros está nas instituições de ensino superior (67,5% do total em 2010 [2]), enquanto que nas empresas a proporção é de apenas 26,2%, bastante abaixo dos índices dos Estados Unidos, Coreia, Japão, China, Alemanha, França e Rússia. Essa, reconhece o documento Balanço das Atividades Estruturantes 2011 do MCTI (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações), é uma das causas da dissociação entre o avanço científico e a incorporação da inovação tecnológica à base produtiva brasileira. De acordo com o então presidente do CNPq, Glaucius Oliva [3], uma pesquisa feita em 2014 com todos os doutores brasileiros formados entre 2008 e 2014 revelou que quase 80 mil deles estavam no Brasil, 90% empregados. Desse total, 80% atuavam no setor educacional. Outros 11% estavam na administração pública e menos de 5% nas empresas. Nos Estados Unidos, a proporção de doutores na indústria chega a 40%.
No gráfico abaixo, de um estudo do Ministério da Educação [3], podemos analisar a distribuição (por empregador) dos mestres e doutores no Brasil.
Para fazermos um paralelo, podemos comparar o desenvolvimento cientifico e tecnológico com um carro: não importa a força do motor, é preciso ter impulso antes de poder transformar toda aquela energia em momento. Além disso, sua velocidade e a eficiência do uso de combustível são bastante influenciadas pelas condições em que se está dirigindo. Ao dirigir em uma estrada esburacada, você não consegue manter a mesma velocidade que teria em uma estrada em boas condições, pois as vibrações atrapalham seu progresso. Você consome muito mais gasolina tentando chegar ao destino, pois precisa compensar a falta de impulso e a resistência da estrada. Gasta mais energia para fazer menos progresso. Não tem momento. Infelizmente, a estrutura do nosso país é a estrada esburacada que o desenvolvimento precisa percorrer.
Além da P&D nas grandes empresas ser restrita por diversas razões, um complicador adicional é a dificuldade em empreender no Brasil, especialmente na construção de negócios inovadores, atividade em que muitos desses mestres e doutores poderiam atuar [4].
O ambiente de negócios brasileiro não oferece a mesma proteção de países como os Estados Unidos sob diversos aspectos. As pessoas físicas que participam de sociedades por quotas de responsabilidade limitada, no Brasil, têm responsabilidade quase sempre ilimitada sob muitas óticas, especialmente no âmbito trabalhista (de risco maior). E o Brasil é o país mais litigioso do mundo neste aspecto, com mais de trinta vezes mais ações trabalhistas do que os EUA (que têm uma economia dez vezes maior). Além disso, a tradição da nossa justiça do trabalho é a de compensação social, o que leva as empresas a perderem quase sempre, seja qual for a causa. Defendemos mais os trabalhadores e consumidores, muitas vezes, à custa da promoção de inovação e desenvolvimento. Empreender no Brasil não é brincadeira para os fracos de coração (e fígado, rins, pulmão e o que mais você tiver).
O relatório Doing Business mais recente do Banco Mundial [5], uma pesquisa sobre o ambiente de negócios em mais de 180 economias, classificou o Brasil em 123º lugar. Baixe a guarda do nacionalismo ingênuo, se ainda sofre dessa doença juvenil, e pense na quantidade de estudos internacionais que colocam o Brasil lá em baixo em qualidade da educação, infraestrutura, abertura de mercado, condições de fazer negócio, empreender, e reflita por ­que este é o caso? Como comentado esta estrada toda esburacada é o Brasil, que desanima qualquer pessoa a empreender, principalmente aqueles que estudam tanto e poderiam contribuir para o desenvolvimento científico e tecnológico. Isto é um fato, e por isso as pessoas preferem a estabilidade das instituições públicas. Não há uma conspiração internacional contra o Brasil, certo? Não somos Irã ou Cuba, não temos inimigos naturais. Então é melhor começar a procurar, por aqui, as razões pelas quais estamos mal em tantos rankings globais. Se você não partir do princípio de que é um problema do governo ou do partido X ou Y, fica muito mais fácil chegar num acordo sobre quais são os problemas que trans­cendem pessoas, partidos e governos, e encontrar soluções pelo menos para os mais prementes.
Além do ambiente de negócios arriscado e da pouca propensão das empresas a investir em P&D, os baixos salários na iniciativa privada, em comparação aos das instituições públicas, fazem com que os profissionais migrem para as últimas, conforme o gráfico [3] abaixo:
Com isso, estamos indo contra o resto do mundo dito desenvolvido, em que a P&D está nas mãos do setor privado, conforme aponta estudo realizado por Mario Sergio Salermo [6]:
Falamos das motivações extrínsecas, que levam nossos doutores e mestres a não atuarem no meio privado, mas há também motivações intrínsecas . Pode-se dizer que no Brasil, em decorrência da nossa herança europeia e do “modo de produção escravocrata” no Brasil-Colônia, criaram-se várias caracterís­ticas culturais que perduram até os dias de hoje, sendo um deles o desprezo pelo trabalho manual. (em razão de ter sido atributo de escravos). Assim, em nosso país os títulos acadêmicos são também “títulos de nobreza”, conforme artigo de Alysson Muotri [8]: “Esse percurso inusitado do termo “doutor” acaba dividindo classes sociais em doutores (ricos) e não doutores (pobres). “Doutor” deixa de ser utilizado como um título e vira pronome de tratamento. O famoso “Pra você é Doutor Fulano” anda de mãos dadas com o egocêntrico fenômeno nacional “Você sabe com quem está falando?”, bem utilizado em discussões onde o interlocutor busca uma forma de demonstrar superioridade e proteção.”
Mas, afinal, qual o propósito de possuir um título? Primeiro precisamos entender o que é propósito. Aristóteles dizia: “onde os seus talentos e as necessidades do mundo se cruzam, aí está a sua vocação (propósito)”. Albert Einstein escreveu: “Somente quem se dedica de corpo e alma a uma causa pode ser um verdadeiro mestre. A exce­lência, pois, exige a pessoa por inteiro”. O que acontece, diferente da maioria dos países, é que no Brasil muitos destes profissionais estão preocupados com sua estabilidade e o status, e quando conseguem, acomodam em seus cargos. O grande problema é que o país está perdendo como um todo, pois estes conhecimentos poderiam estar sendo aplicados para o benefício para própria sociedade. Aqui entendemos a diferença entre necessidade e propósito:
Necessidade tem a ver com escolhas que beneficiam você, propósito tem a ver com escolhas que beneficiam aos outros.
Anderson Pizzutti Bortolotto – Formado em Física pela UEL e Administração de Empresas pela FECEA, como especialização em Engenharia de Produção e Educação Matemática pela UEL. Consultor em Finanças e Controladoria, além de ser professor de Física. Possui mais de 12 anos de experiência na área financeira e controladoria de empresas de grande e médio porte pelo Brasil. Também atuou no Mercado financeiro como Analista de Investimentos em um Fundo de Investimentos. Apaixonado por números, investimentos e cortar custos, além de mudar a sorte das empresas, principalmente aquelas com graves problemas financeiros.
Terraço Econômico